segunda-feira, 30 de abril de 2018

Canteiros de Saturno

“O pensamento fez Isadora sorrir. Muito pomposo. Uma expressão tão retórica e abstrata que nem parecia coisa saída da sua cabeça. Ridículo alguém usar essas palavras, mesmo para pensar. Mas também, agora que prestava mais atenção, via que a escolha delas fora reveladora. Chamava a atenção para o aspecto compulsivo, o lado quase maníaco do comportamento de Tuca quando ficava daquele jeito, chamando o nome dela toda hora para nada. Ou para perguntar pelas chaves do carro que estavam na mão dele, pelas meias que estavam na gaveta, pelo jornal que estava em cima da mesa, pela toalha que estava atrás da porta do banheiro, por tudo o que estava no lugar de sempre, meu Deus. Mas, principalmente, e era disso que Isadora de repente se dava conta, com um meio-sorriso que não deixava de revelar laivos de ternura - por si e pelo marido -, aquela expressão meio ridícula que lhe viera à mente funcionava como um lapso e trazia o aspecto fundamental de sua irritação. Crônica. Cronos. O velho deus grego. O Saturno dos romanos. O senhor do tempo. Tempo, tempo, tempo. Um senhor tão avaro. Sempre traindo, subtraindo. Diminuindo cada miúdo minuto. E a consciência disso também a contaminava de avareza fazendo-a relutar em dividir, compartilhar sua maior preciosidade.”


(“Canteiros de Saturno” Ana Maria Machado - Sexta e atual, ocupante da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras)



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