“Que sabia ele a respeito disso?
Morava na rua Gabrielle, num prédio à beira dos jardins do Sacré-Couer. Subimos pela escada de serviço. Levou muito tempo para abrir a porta: três fechaduras nas quais rodou chaves diferentes com a lentidão e o cuidado que se empregam para seguir a combinação sutil de um cofre-forte.
Um minúsculo apartamento. Compunha-se apenas de uma sala e um quarto, que originalmente deveriam ser um só cômodo. Cortin...as de cetim rosa, presas por cordéis em fio de prata, separavam a sala do quarto. Esta era forrada de seda azul-celeste, e a única janela escondida por cortinas da mesma cor. Mesinhas de laca negra, sobre as quais se dispunham objetos de marfim ou de jade, pequenas poltronas estofadas em verde-pálido e um canapé coberto por um tecido estampado com ramagens de um verde ainda mais diluído davam ao conjunto o aspecto de uma caixa de bombons. A luz vinha dos apliques dourados da parede.
- Sente-se - disse-me.”
(“Uma rua de Roma”. Patrick Modiano. Prêmio Nobel de Literatura 2014)
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Preciso muito falar com você...
Ele voltou-se. Umedeceu
com a ponta da língua os lábios secos. E teve um meio sorriso que lhe deu à
fisionomia uma expressão desamparada.
- Eu estava tão
distraído - desculpou-se abotoando o paletó.
Você não estava distraído,
pensei responder-lhe, você estava na defensiva. Preparava-se para uma luta. Era
com o Diabo? quis gracejar. Contive-me. Não cabia agora nenhum gracejo.
- Acho que podemos
enfim conversar. Ou não?
Ele escudou-se atrás
da mesa. Baixou o olhar para os meus pés.
- Você está parecendo
uma menina assim descalça...
- Gosto de andar
descalça no verão - murmurei aproximando-me. - André, preciso muito falar com
você.
Apesar da
semiobscuridade da sala, notei que sua expressão estava agora mais firme. Ele
se recompunha.
- Sim, precisamos
conversar - concordou num tom de homem de negócios que vai ver se dispõe de
algum tempo livre em sua agenda. - Mas vamos acender a luz?
Antes que ele
chegasse ao abajur, segurei-lhe a mão por detrás. Por um rapidíssimo segundo
ficamos de mãos dadas no escuro, imóveis e tão próximos que cheguei a sentir
sua respiração. Mais um passo e poderia beijá-lo na boca. Contudo, mais
profundo ainda do que o beijo era aquele halo espesso que nos envolvia e nos
mantinha em suspenso.
- Anoiteceu - disse André
desvencilhando-se. Acendeu a luz. - Não está melhor assim?
- Não, estava melhor
antes - respondi acendendo um cigarro (...)
(“Verão no aquário”.
Lygia Fagundes Telles)
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
A rua
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nos nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo sentimento insuportável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia - o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
(“A alma encantadora das ruas”. João do Rio)
(“A alma encantadora das ruas”. João do Rio)
Os santos aparecem, os demônios assombram
A ver a imensidão dos fiordes, as montanhas de pedra cortadas por rigor, o movimento nenhum, achei que o mundo mostrava a beleza mas só sabia produzir o horror. (...) Podia ser que eu estivesse ainda mais magra por ter ficado vazia dos poucos gramas que pesava a alma. A minha mãe chamava-me estúpida. Perguntei-lhe que sentido encontrava na vida. O que andaríamos ali a tentar descobrir. Mas ela nunca o saberia. Surpreendeu-se com a profundidade da questão. Foi um modo intuitivo que tive de a magoar, para que não me ofendesse com sua contínua e impensada rejeição. Magoávamo-nos, acreditava eu, sempre por causa da ternura. Como que a reclamá-la enquanto a perdíamos de vez. (...) Repeti: a morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco. (...) As nossas pessoas olhavam-me sem saber se viraria santa ou demônio. Os santos aparecem, os demônios assombram.
(“A desumanização”. Valter Hugo Mãe)
(“A desumanização”. Valter Hugo Mãe)
Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com o resto?
De mil experiências que fazemos, no máximo conseguimos traduzir uma em palavras, e mesmo assim de forma fortuita e sem o merecido cuidado. Entre todas as experiências mudas, permanecem ocultas aquelas que, imperceptivelmente, dão às nossas vidas a sua forma, o seu colorido e a sua melodia. Quanto depois, tal qual arqueólogos da alma, nós nos voltamos para esses tesouros, descobrimos quão desconcertantes eles são. O objeto da observação se recusa a ficar imóvel, as palavras deslizam para fora da vivência e o que resta no papel no final não passa de um monte de contradições. Durante muito tempo acreditei que isso era um defeito, algo que deve ser vencido. Hoje penso que é diferente, e que o reconhecimento de tamanho desconcerto é a via régia para compreender essas experiências ao mesmo tempo conhecidas e enigmáticas. Tudo isso parece estranho, eu sei, até mesmo extravagante. Mas desde que passei a ver as coisas assim, tenho a sensação de, pela primeira vez, estar atento e lúcido.
(“Trem noturno para Lisboa”, Pascal Mercier)
(“Trem noturno para Lisboa”, Pascal Mercier)
Os sonhos esquecidos
Helena sonhou que deixava os sonhos esquecidos numa ilha.
Claribel Alegria recolhia os sonhos, os amarrava com uma fita e os guardava bem guardados. Mas as crianças da casa descobriram o esconderijo e queriam vestir os sonhos de Helena, e Claribel, zangada, dizia a eles:
- Nisso ninguém mexe.
Então Claribel telefonava para Helena e perguntava:
- O que faço com os seus sonhos?
("O livro dos abraços". Eduardo Galeano. Tradução de Eric Nepomuceno)
Claribel Alegria recolhia os sonhos, os amarrava com uma fita e os guardava bem guardados. Mas as crianças da casa descobriram o esconderijo e queriam vestir os sonhos de Helena, e Claribel, zangada, dizia a eles:
- Nisso ninguém mexe.
Então Claribel telefonava para Helena e perguntava:
- O que faço com os seus sonhos?
("O livro dos abraços". Eduardo Galeano. Tradução de Eric Nepomuceno)
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Viagem de Bonde - Raquel de Queiroz
Era o bonde Engenho de Dentro,
ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, empurrando sempre encaixa. O
que provou ser otimismo, porque talvez encaixasse metade ou um quarto de pessoa
magra, e a alentada senhora que se guindou ao alto estribo e enfrentou a
plataforma traseira junto com um bombeiro e outros amáveis soldados, dela
talvez coubesse um oitavo. Assim mesmo, e isso prova bem a favor da
elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar.
E tratava de acomodar-se gingando os ombros e os quadris à direita e à
esquerda, quando o bonde parou em outro poste, o soldado repetiu o tal slogan
do encaixe, e foi subindo – logo quem! – uma baiana dos seus noventa quilos, e
mais uma bolsa que continha o fogareiro, a lata dos doces, o banquinho e o
tabuleiro. E aquela baiana pesava os seus noventa quilos mas era nua, com
licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava
mesmo era aos cem. E esqueci de dizer que junto com ela ainda vinha uma cunhazinha
esperta que era um saci, que se insinuou pelas pernas do pessoal e acabou
cavando um lugarzinho sentada, na beirinha do banco, ao lado de uma moça
carregada de embrulhos e que assim mesmo teve o coração de arrumar a garota.
Também o diabo da pequena conquistava qualquer um, com aquele olho preto
enviesado, o riso largo de dente na muda.
Esqueci de falar que tudo isso se
passava no carro-motor. No reboque, atrás, a confusão parecia maior. Muita
gente pendurada entre um carro e outro, e havia um crioulo de bigode à Stalin,
muito distinto, tinha cara de dirigente no Ministério do Trabalho, que muito
sub-repticiamente viajava sobre o pino de ligação entre os dois carros ou, para
dizer melhor, com um pé na sapata do carro-motor e o outro na sapata do
reboque. E quando o condutor aparecia para cobrar a passagem, se era o condutor
da frente ele punha os dois pés no reboque, e se era o condutor do reboque que
vinha com o “faz favor” ele então executava o vice-versa. Sei que não pagou
passagem a nenhum dos dois e devia fazer aquilo por esporte; não tinha cara de
quem precisa se sujar por cinquenta centavos; esporte, aliás, que todo o mundo
aprova e aprecia, pois quem é que não gosta de ver se tirar um pouco de sangue
à Light? E aí o bonde andou um bom
pedaço sem que ninguém mais atacasse a plataforma. A turma que chegava,
ocupava-se agora em guarnecer os balaústres, formando com os pingentes uma
superestrutura decorativa. Mas, alcançando-se o abrigo defronte à Central,
quase chegou a haver pânico. Porque no momento em que a multidão da calçada
assaltava o veículo, a baiana quis descer, e não era façanha somenos desalojar
aquela massa da pressão onde se encastoara, sem falar na pressão de baixo para
cima feita pelos que tentavam subir, contra quem pretendia descer. Mas afinal
já a baiana aterrissara na calçada e o vácuo por ela deixado era
instantaneamente ocupado com uma violência de sorvedouro, o condutor tocara o
seu tintim de partida, quando ressoaram uns gritos agudos cortando o ar
abafado. Era o pequeno saci de olhos pretos a clamar que o povo subindo não a
deixara descer. E a tensão geral explodiu em cólera e ternura, e todo o mundo
tocava a campainha, alguns confundiam, puxavam a corda do marcador de
passagens, o condutor vendo isso pôs-se a imprecar em puro linguajar da
Mouraria, uma voz berrava: – já se viu que brutalidade, impedir a criança de
descer; a baiana, em terra, chamava a filha com voz macia, o motorneiro, para
ajudar e mostrar que não tinha nada com aquilo, desandou a tocar aquela espécie
de sino que fica embaixo do pé dele. E enquanto os passageiros compassivos
desembarcavam a garota, um senhor, que vinha em pé no meio dos bancos, pôs-se a
declamar que era assim mesmo, que motorneiro, condutor e fiscal, em vez de se
aliarem com o povo, não passavam de uns lacaios da Light, mas quando chegasse
na hora de pedir aumento de ordenado haviam de querer que a população ajudasse
com aumento nas passagens. O povo é que é sempre o sacrificado. E o condutor aí
se enraiveceu também, e começou a convidar o homem para a beira da calçada, e o
senhor disse que não ia porque não se metia com estrangeiros, e um engraçadinho
deu sinal de partida e o motorneiro (que já estava por demais chateado) partiu
mesmo, deixando o condutor em terra, vociferando; só foi dar pela falta quando
chegou com o carro bem defronte do sinal; parou então, e enquanto o condutor
corria o guarda começou a apitar, que o bonde tinha parado no meio da luz verde
aberta para os carros em direção contrária; parecia o dia de juízo, o bonde
parado, os automóveis buzinando, o guarda apitando e sacudindo os braços, o
pessoal do bonde rindo que era ver uns demônios. Afinal o bonde partiu, tudo
pareceu acalmar um pouco, mas aquele senhor em pé que xingara os pobres
empregados da Light de lacaios do polvo canadense mostrou que era homem afeito
a comícios, não se dava de uma interrupção tumultuosa. Estava acostumado a
falar até em meio da fuzilaria, assim que ele disse. E que isso tudo acontecia
porque o Governo promete mas não cumpre o dispositivo constitucional – sim,
meus senhores, constitucional! – da mudança da capital da República. Imagine
que delícia o Rio ficar livre de toda a laia dos burocratas, dos automóveis dos
políticos e dos políticos propriamente ditos. Imagine, o Getúlio em Goiás e com
ele a alcateia dos lobos, os cardumes de tubarões, os rebanhos de carneiros!
Isso aqui ficava mesmo um céu aberto. Pelo menos um milhão de pessoas iria
embora, e que maravilha o Rio com um milhão de vagas nos transportes, um milhão
de vagas nas residências, um milhão de bocas a menos, para comer o nosso mísero
abastecimento! As favelas se acabam automaticamente, o arroz baixa a quatro
cruzeiros! Saem a Câmara e o Senado, e os Ministérios com todas as suas Marias
candelárias. Pensando nos ministérios – será apenas um milhão de gente que nos
deixa? Calculando por baixo, talvez saia mais de um milhão! O que virá em muito
boa hora, pois no Rio sobram uns dois milhões!
E aí o bonde inteiro aplaudiu,
cada qual só pensava na vaga a seu lado. E, se aquele bonde fosse maior, talvez
nesse dia, no Rio de Janeiro, houvesse uma revolução. Talvez o povo do Rio de
Janeiro desse ordem de despejo para o seu Governo, lhe apanhasse os trastes,
lhe apontasse a estrada, que é larga e vai longe. Mas, feliz ou infelizmente, o
bonde era pequeno e, apesar de conter tanta gente, não dava nem para um
bochincho. E o Governo, pensando bem, também é de carne como nós – e só um
coração de ferro tem coragem de deixar este Rio, assim mesmo apertado,
superlotado, sem comida, sem transporte, sem luz e sem água. Como disse um
paraíba que vinha junto com o soldado:
– Qual, se no céu faltasse água ou luz, por isso
os anjos haveriam de se largar de lá? Céu é céu, de qualquer jeito…
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