terça-feira, 6 de março de 2018

Os segredos da obra "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Marquez

Cidade do México — Foi numa terça-feira de 1965. Gabriel García Márquez tinha acabado de voltar de um fim de semana em Acapulco (México) com sua mulher e seus dois filhos quando, fulminado por um “cataclismo da alma”, sentou-se diante da máquina de escrever e, como ele mesmo se recordaria anos mais tarde, não se levantou até o início de 1967. Naqueles 18 meses, todos os dias, das nove da manhã às três da tarde, o escritor colombiano gestou Cem anos de solidão.
Muito já foi escrito sobre o ambiente mexicano em que nasceu sua obra máxima, sobre sua obsessão criativa, suas dificuldades econômicas, o apoio constante dos amigos. Mas muito pouco é sabido sobre a construção de Cem anos de solidão. As chaves de sua formação material, a engenharia sobre a qual o escritor edificou o universo de Macondo, continuam entre sombras. E esse mistério não foi casual. Quando recebeu o primeiro exemplar impresso, em junho de 1967, o próprio autor rasgou o original para que “ninguém pudesse descobrir os truques ou a carpintaria secreta”. Pouquíssimos documentos se salvaram daquela destruição histórica. Um deles, possivelmente o mais importante, foi a primeira cópia das provas de impressão. Sobre elas, García Márquez anotou de seu próprio punho 1.026 correções, deixando à mostra modificações e inflexões de enorme interesse.
Esses papéis, aos quais o El País teve acesso, seguiram uma trajetória acidentada. O escritor os deu de presente ao cineasta exilado Luiz Alcoriza e sua esposa, Janet. Depois da morte dos dois, foram postos em leilão duas vezes, sem encontrar comprador. Agora, esquecidos novamente, procuram uma instituição que os receba. “Prefiro que estejam em uma biblioteca ou um museu que comigo”, diz o mexicano Héctor Delgado, herdeiro dos Alcoriza.
As provas de impressão, da editora Sudamericana, somam 181 folhas duplas, numeradas à mão, com anotações do autor feitas com caneta esferográfica ou caneta marca-texto. Um olhar sobre essas anotações revela as minúcias artísticas do trabalho de García Márquez. Nelas, o autor assinala os inícios de capítulo, reordena parágrafos, suprime e acrescenta frases, substitui ou corrige mais de 150 palavras e, em muitas ocasiões, chama a atenção para erros. Nesse exercício fica evidente a exigência exaustiva do autor consigo mesmo. As modificações não visam apenas purificar o texto ou aclarar a profusão de nomes dos Buendía, mas também aprofundam seus complexos jogos de linguagem. Às vezes tratam-se de sutilezas: de “amedrontar” passa-se para “intimidar”, de “obstruir”, para “cegar”, ou de “completar” para “complementar”. Mas em outras a mão do escritor vai muito mais longe: as borboletas de tornam “amarelas”, as sanguessugas são arrancadas “queimando-as” com brasas, o troglodita é convertido em um “tosco”, as crianças andam como “sorumbáticas”, a Ópera Magna se transforma em “alquimia”, um São José de gesso descobre um interior “abarrotado de moedas de ouro” e a descarga do Mauser “desbarata”, em vez de “desarticular”, um crânio.
Alguns personagens ganham nuances novas com as observações adicionais. Amaranta, por exemplo, “finge sensação de desgosto” quando ouve falar em casamento, enquanto Aureliano vê sua “antiga piedade” transformar-se em “animadversão virulenta”. São alterações constantes. Uma chuva fina de melhorias que, sem gerar mudanças de fundo nem reviravoltas do argumento, descobrem a dimensão microscópica e tenaz de um texto de cuja grandeza o autor tinha consciência.
Possivelmente por isso, García Márquez nunca devolveu as provas de impressão à editora, mas enviou as correções à parte. E, longe de destruir o documento, como teria sido de se esperar, o converteu em um monumento à amizade: o deu de presente e dedicou ao diretor de cinema Luis Alcoriza e sua esposa, a atriz austríaca Janet Riesenfeld: “Para Luiz e Janet, uma dedicatória repetida, mas que é a única verdadeira: do amigo que mais os ama neste mundo. Gabo. 1967.”
Radicado no México e muito próxima a Luis Buñuel, o casal fazia parte do círculo íntimo do escritor colombiano, aquele que o tinha apoiado nas épocas mais negras e com quem, nos bons tempos, ele tinha festejado a alegria de viver. O próprio autor o explicou anos mais tarde em um artigo no El País: “Quando a editora me mandou a primeira cópia das provas de impressão, eu as levei já corrigidas a uma festa na casa dos Alcoriza, sobretudo para matar a curiosidade insaciável do convidado de honra, dom Luis Buñuel, que teceu todo tipo de especulações magistrais sobre a arte de corrigir, não para melhorar, mas para esconder. Vi Alcoriza tão fascinado com a conversa que tomei a boa decisão de lhe dedicar as provas.”
O casal guardou as páginas como um objeto sagrado. Dezoito anos mais tarde, quando Cem anos de solidão já era um totem, García Márquez voltou a encontrar as provas na casa dos Alcoriza: “Janet as tirou do baú e as exibiu na sala, até que lhes disseram, como brincadeira, que com isso eles podiam deixar de ser pobres. Alcoriza então fez uma cena muito sua, golpeando-se no peito com os dois punhos e gritando com seu vozeirão bem empostado e sua determinação carpetovetônica: ‘Pois eu prefiro morrer a vender essa joia dedicada por um amigo’.” García Márquez respondeu escrevendo debaixo da dedicatória, com a mesma caneta que da primeira vez: “Confirmado. Gabo. 1985.”
Luiz Alcoriza, o exilado, morreu em 1992 em Cuernavaca. Sua esposa faleceu seis anos depois. As provas de impressão ficaram com seu herdeiro, o engenheiro e produtor Héctor Delgado, o homem que cuidou deles em seus últimos dias. Em 2001, com a concordância do Prêmio Nobel, as provas foram colocadas em leilão em Barcelona por um milhão de dólares (três milhões de reais), sem encontrar comprador. Um ano depois, tampouco foi encontrado comprador com a Christie’s. Agora, um ano após a morte de García Márquez (2015), o herdeiro, que está com 73 anos, procura quem queira adquirir as provas. A Universidade do Texas, que comprou o arquivo do escritor, se interessou, mas pouco mais que isso. Quase meio século após sua gestação, um dos poucos documentos que se salvaram da gênese de Cem anos de solidão continua a buscar um dono.


fonte: Revista Prosa e Verso




Me alquilo para soñar


"La había conocido treinta y cuatro años antes en Viena, comiendo salchichas con papas hervidas y bebiendo cerveza de barril en una taberna de estudiantes latinos. (…)

Me pareció que era la única austríaca en el largo mesón de madera, por el castellano primario que hablaba sin respirar con un acento de quincallería. Pero no, había nacido en Colombia y se había ido a Austria entre las dos guerras, casi niña, a estudiar música y canto. En aquel momento andaba por los treinta años mal llevados, pues nunca debió ser bella y había empezado a envejecer antes de tiempo. Pero en cambio era un ser humano encantador. (…)

Nunca dijo su verdadero nombre, pues siempre la conocimos con el trabalenguas germánico que le inventaron los estudiantes latinos de Viena: Frau Frida. Apenas me la habían presentado cuando incurrí en la impertinencia feliz de preguntarle cómo había hecho para implantarse de tal modo en aquel mundo tan distante y distinto de sus riscos de vientos del Quindío, y ella me contestó con un golpe:

—Me alquilo para soñar.

En realidad, era su único oficio. Había sido la tercera de los once hijos de un próspero tendero del antiguo Caldas, y desde que aprendió a hablar instauró en la casa la buena costumbre de contar los sueños en ayunas, que es la hora en que se conservan más puras sus virtudes premonitorias. A los siete años soñó que uno de sus hermanos era arrastrado por un torrente. La madre, por pura superstición religiosa, le prohibió al niño lo que más te gustaba, que era bañarse en la quebrada. Pero Frau Frida tenía ya un sistema propio de vaticinios.

—Lo que ese sueño significa —dijo— no es que se vaya a ahogar, sino que no debe comer dulces (…)"

("Me alquilo para soñar". Doce cuentos peregrinos - Gabriel García Márquez)


segunda-feira, 5 de março de 2018

La forma del agua

En la ambientación de la Guerra Fría de 1962 se sitúa La forma del agua, obra fílmica del cineasta mexicano Guillermo del Toro, la cual lo ha llevado a conquistar los más importantes galardones de la industria cinematográfica y  a competir en 13 categorías de los Premios Oscar, mismos que se llevarán a cabo el próximo 4 de marzo.
En el departamento de limpieza de un laboratorio militar de Baltimore, EE. UU., trabaja Elisa —Sally Hawkins—, una mujer muda, mágica, tan cotidiana como etérea en sus actos. Acepta su vida y comparte la misma con su compañera de trabajo, Zelda —Octavia Spencer—, quien siempre tiene quejas de su marido, y Giles —Richard Jenkins —, su vecino, obsesionado con recuperar su empleo.
Los personajes están construidos para ser vulnerables frente a la sociedad de los años 60. Sin embargo, culminan al encontrarse entre sí, en especial cuando «La princesa sin voz» se enamora del hombre anfibio —Doug Jones—, quien es recluido en un laboratorio gubernamental secreto y su destino es ser una victima del gobierno y funcionarios.
La tragedia y el terror es Strickland —Michael Shannon—, conservador, religioso, temperamental, con miedo al fracaso y acosador; una perfecta figura estadounidense que abusa del poder. Él está al frente de la protección del proyecto que mantiene al anfibio en el laboratorio de alta seguridad, circunstancia que lo lleva a convertirse en «el monstruo que alguna vez quiso destruirlo todo».
En cada secuencia del largometraje se encuentra el mundo —sello— de Guillermo del Toro, mismo que ha desarrollado a través de sus cintas en el transcurso de su carrera como cineasta, tal es el caso de El espinazo del diablo o El laberinto del fauno, discursos que partían de lo infantil y fantástico. En esta ocasión el director y escritor se aventura una vez más con una historia  que enaltece al marginado y la presenta por medio de una fabula que representa los matices de las emociones.
Del Toro atrapa al espectador con la conexión de «las relaciones humanas y el amor», la unión de los indefensos frente a circunstancias poco convencionales que los lleva a huir de la fuerza antagónica. Situación que hace del filme una obra humana, alentadora y excelsa de espíritu.
La forma del agua va más allá de las palabras, de lo evidente, rompe con los limites de la realidad y encuadra lo sustancial de una sociedad, situación que confronta al público para ser parte de una historia de romance o una critica social. Termina con la ficción y recae en la poesía del amor.

«Pero cuando pienso en ella, en Elisa todo lo que viene a mi mente es un poema. Hecho con solo unas pocas palabras verdaderas… Susurrado por alguien enamorado, hace cientos de años…
“Incapaz de percibir tu forma, te encuentro a mi alrededor. Tu presencia llena mis ojos con tu amor, humilla mi corazón, porque estás en todas partes “.»





fonte: http://algarabia.com/desde-el-palco/la-forma-del-agua/




domingo, 4 de março de 2018

Vestígios do dia


“(...) E assim começamos a voltar para as casinhas. Enquanto seguia, senti que tinha ficado muito tarde e que meu acompanhante estava ansioso para dormir. Passamos longos minutos andando em volta das casinhas de novo, ele então nos conduziu até a praça da aldeia. Na verdade era tão pequena e sem graça que nem merecia ser chamada de praça; era pouco mais que um retalho de verde ao lado de um poste de luz solitário. Pouco visíveis ao lado da poça de luz projetada pelo poste, havia umas lojas, todas fechadas para a noite. O silêncio era completo, nada se mexia. Uma leve neblina pairava acima do chão.”

(“Vestígios do dia”. Kazuo Ishiguro - Prêmio Nobel de Literatura de 2017)


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Llorar lágrimas de cocodrilo

Es un dicho arraigado en el folclor de diversas culturas alrededor del mundo que se aplica a quienes manifiestan un comportamiento hipócrita
 o no lloran de corazón.
La conseja se inspiró en la creencia generalizada de que el cocodrilo es un timador consumado, ya que, para despertar la compasión de los oyentes, animales u hombres, y atraerlos a sus dominios para devorarlos, finge 
el lastimoso llanto de un ser desvalido. Memorable es la sentencia que William Shakespeare expresa acerca de la falsa aflicción cocodriliana cuando Otelo, perturbado por los celos y los comentarios de su mujer Desdémona, le refiere: «¡Oh, diablesa, diablesa! Si la tierra pudiera fecundarse con lágrimas de mujer, cada gota que viertes se convertiría en un cocodrilo. ¡Fuera de mi vista!».
Por curioso que resulte, es verdad que tanto el lagrimeo como el gemir son condiciones del comportamiento cocodriliano, mas no como resultado de expresar viciosos sentimientos humanos, sino como parte de estrategias biológicas que le han valido la permanencia sobre la faz del planeta por cerca de 350 millones de años.
Por mucho tiempo se pensó que el cocodrilo llora para engañar a una potencial presa o, peor aún, después de zampársela. Pero el reptil no es ni hipócrita ni compasivo 
y, por consiguiente, no derrama lágrimas a causa de estas congojas. Lo que ocurre es que tiene un aparato potabilizador: sus riñones a menudo no pueden liberarse de todos los excedentes de sales que recibe el organismo y, entonces, acuden en su ayuda unas glándulas que tienen en los ojos, llamadas harderianas, a través de las cuales expulsa las sales, diluidas en agua, como si de lágrimas se tratase. También sus glándulas lagrimales producen un fluido, muy similar a nuestras lágrimas, que le ayuda a lubricar sus ojos para mantenerlos limpios y libres de bacterias.
Además, los cocodrilos sobresalen de entre los reptiles por
 su gran capacidad de vocalización. Los sonidos que emiten estos saurios prehistóricos varían desde las cavernosas voces que los machos emplean para cortejar a las hembras durante la temporada de apareamiento, hasta los agudos «llamados» de auxilio con que los recién nacidos avisan a la madre que acaban de salir del cascarón o que se encuentran bajo amenaza.
Posiblemente estas voces cocodrílicas fueron interpretadas
 en el pasado como lastimosos gemidos de engaño porque, desde la insidiosa perspectiva humana, solamente la hipocresía puede expelerse del interior de un depredador consumado cuyo único propósito en la vida es saciar su permanente sed de sangre y carne.
No cabe duda que en la construcción de este singular proverbio, interviene más el mito que la realidad. La mitificación que los humanos han hecho de los reptiles o de su comportamiento, se resume perfectamente en las palabras que Herbert Wendt utilizó para explicar por qué los hechos reales de la naturaleza se ocultan tras el velo de sucesos fabulosos contenidos en proverbios, refranes, apotegmas, mitos y leyendas: en las personas de todos los tiempos y todas las culturas, invariablemente «su fantasía funcionaba mejor que su vista —y hasta que su oído— […]»


Texto tomado de Algarabía 71








quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Um céu todo estrela



então se fez fonte
o que só era toque.
 
um céu todo estrela
no encontro dos olhos,
 
um fulgor que enlaça
a calmaria da febre
 
onde o tempo se despe
 
e a carne clama um ato
ainda sem nome
 
***
 
procura-se o desassossego
das horas inquietas e úmidas,
a violada canção sagrada
a arder em desertos diários.
 
procura-se o incerto,
a secura ilhada do silêncio,
o tédio das cidades fantasmas,
os caminhos sem saídas,
a íntima falta
que a memória não dissipa.
 
procura-se a mina – os passos
correm o campo, descalços:
a explosão única e precisa,
a limítrofe errância  
entre o plano e o precipício.
 
procura-se a voraz vertigem,
o sagrado impregnado do profano,
a humana redenção à vida.
 
procura-se o maior abismo
escavado no coração da terra,
do céu, no peito do aflito,
 
o fogo mais intenso e quase extinto,
o manancial do delírio,
a hora em que deflora a flor
o inseto e tudo é lindo.
 
procura-se a loucura, o delíquio:
tudo aquilo a que o amor se lança
fingindo não temer o risco
 
***
 
ubuntu,
meu coração desafia
não ser um.
 
juntos, compartir o fruto.
nem mesmo as mãos
são só duas, quando estendidas
ao futuro.
 
bem mais em mim que o dobro
em tudo, revoluz, vislumbro o todo
e pó, que sou, solto pelo mundo.
 
seguem as dunas
e não duram eternas ao vento.
à margem do mar, marejado olhar suspenso,
aconchega a ilusão de um mundo tão pequeno;
até correr, pés, utopia, o espaço incalculável
do universo, quando esquecemos o tempo:
 
cemitério indesvendável do nada 
 
***
 
canto,
mesmo que o canto
não compreenda
os ossos todos dos ecos,
 
nem saiba
o sibilino mistério do assombro
de se evocar, em poucas palavras,
o mesmo e o novo,
 
como a água evoca a água
o ar o ar a terra a terra
o fogo o fogo a mulher a vida.
 
gesto o canto mesmo quando
pareço silêncio

***
como se a casa fosse
de sua alma erigida,
sobre a forma que trouxe
à luz a sua própria vida,
 
é nessa casa que habita
meu ser que se recria:
 
sobre a forma que trago,
de minha alma ser a casa
onde nosso amor cultiva
uma troca de moradas,
 
que é a mesma casa,
a vida
 
***
agora o pouco
é tudo
o que nos resta.
 
agora é tudo.
 
é muito
pedir pouco.
 
agora resta
a vida e seus outros mistérios,
 
sua presença constante
e a fuga sempre certa
do tempo.
 
agora tudo 
é o que nos resta
 
(“Um céu todo estrela” - Alex Dias)








Alex Dias é poeta, ator e gestor cultural. Autor dos livros de poesia Lírica Abissal, lançado pela editora Urutau (2016) e Um céu todo estrela, lançado pela editora Patuá (2017), é Coordenador de Programação do Sesc Birigui e mestrando em Teorias e Crítica da Poesia, pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UNESP de Araraquara, com a pesquisa: Construção e utopia na poesia de invenção. Tem pós-graduação em “Gestão Cultural: Cultura, Desenvolvimento e Mercado” (2016). Possui graduação em Ciências da Informação e da Documentação e Biblioteconomia pela USP de Ribeirão Preto (2006). Fundou e dirige a empresa Osnáuticos – de Arte, Cultura e Educação – onde desenvolve projetos que englobam poesia, literatura, cinema, música e artes cênicas e visuais. Também fundou e coordena o "Poéticas – Laboratório de pesquisa e Criação Literária e Poética" e o projeto "Bagagem... Poesia!", voltado à mediação de leituras. Fez Magistério (2002) em São José do Rio Preto.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quarta-Feira de Cinzas


“Naquele dia, a cidade ainda dormia ou ia se levantando lentamente. Apesar de São Paulo se vangloriar de ser o maior centro industrial da América Latina, como anunciavam seus vermelhos bondes ‘camarão’, o silêncio e a modorra se explicavam: não se tratava de uma quarta-feira qualquer, e sim de uma Quarta-Feira de Cinzas, após três dias de carnaval.

Mas nem tudo estava parado. Os lixeiros percorriam as ruas, recolhendo os restos da folia no centro da cidade. Cacos de vidro de lança-perfumes, serpentinas emaranhadas, garrafas de cerveja, iam sendo lançados nos caminhões de lixo, embora fosse difícil apagar todos os vestígios de uma festa que introduzira uma cunha brejeira na marcha cotidiana da cidade sisuda.

Dentre os vestígios, os confetes coloridos teimaram em ficar grudados ao asfalto, resistindo às vassouras dos lixeiros até que fossem arrastados pelas chuvas fortes de verão.”

(“O Crime do Restaurante Chinês” - Boris Fausto)